Tuesday, July 6, 2010

Os Funerais do Coelho in Flames

Sento no pátio da faculdade, puxo minha carteira de Marlboro e acendo um cigarro. Abro a mochila e tiro um livro de capa preta dentro da mesma.
 
Começo a ler o livro, e ao fundo uma rádio fudida dos alunos de Comunicação começa a tocar músicas. Kurt Cobain e Raul Seixas foram os dois primeiros cantores a soltarem suas vozes naquela caixa de som velha e desgastada pela maresia. E com a minha mão esquerda abro o livro de um autor, que assim como os dois nomes citados acima, é um cantor com uma legião de fãs por todos os cantos do mundo. Assim como para milhares de pessoas, Kurt Cobain e Raul Seixas foram únicos em suas respectivas época, Nenê Altro é único na minha época.

Ao ler o Capitulo Um, noto que várias pessoas passavam por mim e discretamente olhavam para a capa do livro. Até agora não sei se algum deles reconheceu ou não, mas praticamente todos viravam a cara ao perceber que eu tinha notado as suas espiadas. Outras pessoas deviam me achar estranho: um jovem solitário sentado em pleno pátio da faculdade, fumando e lendo um livro, enquanto todos os outros estavam com os nervos à flor da pele preocupados com as provas da última semana de aula. Porém, olhando melhor, percebo que cachorros também estavam por perto. Alguns jogados nos degraus, feitos para foderem com a vida dos deficientes físicos, outros apenas deitados em alguma área coberta, provavelmente procurando abrigo da chuva que caía na hora.


Durante a leitura, acompanhado de um cigarro e agora um copo de café, a rasta mais linda do mundo passa por mim, e com aquele seu sorriso metálico que faz meu coração dar leves suspiros, ela vem em minha direção. Fala que sentiu minha falta e que no próximo semestre era para a gente pegar mais matérias juntos. E com isso ela se despede. Ela tão branca, quanto o leite, me fez lembrar de um trecho do livro: "Café não tem nada a ver com o amor. Café desce rasgando e te deixa ligado. Amor não. Amor é tipo leite: tem prazo de validade curto e azeda muito rápido".

Após terminar de ler o tal capítulo, noto que a chuva já tinha passado e que o sol estava a brilhar num céu já azul. Os tão citados pombos estavam presentes também no cenário. Arrumo minhas coisas, acendo mais um cigarro e percebo que eu tinha deixado o mp3 player do celular ligado e ouço uns riffs conhecidos. Ao colocar os fones no ouvido, ouço uma voz amiga cantando "O tempo para, eu vejo tudo demolir. Começar, tudo outra vez" e enfim caio em mim e vejo que o semestre acabou. Semestre que vem, tem tudo de novo, e eu preciso começar a dar valor aos meus estudos. Então novamente berros de uma voz conhecida entram nos meus ouvidos com as seguintes palavras: "O homem Deus aprenderá. O homem Deus se salvará" Espero, em breve, ser esse tal homem (não Deus), e aprender a viver a vida.

Saio da faculdade e no portão eu encontro uma amiga minha, que há tempos eu não via. Ela comenta sobre a minha roupa. Falou que eu estava bonito. Engraçado, eu tinha vestido minha bermuda mais velha e uma camisa desbotada e folgada. Despeço-me dela, e ao colocar os fones no ouvido, ouço aquela mesma voz berrar "Roupas rasgadas" e, um pouco após, a voz melódica dizer "É impossível compreender, é impossível se escutar. Não parar pra pensar, apenas agir."

Realmente tenho que parar de pensar, e começar a agir. Pois quando você menos espera, é quando as pessoas mais te aprovam. Não que EU precise dessa aprovação, pois eu quero mais é que as pessoas se fodam, mas infelizmente para a sociedade, a qual eu estou engajado, essa aprovação é um pré-requisito para a sobrevivência.

Continuo minha caminhada rumo ao ponto de ônibus, e novamente submerso aos berros lançados direto aos meus tímpanos dizendo "Avançar, avançar, não exitar" atravesso a rua imprudentemente. Quando olho para o meu lado esquerdo, tem um carro parado a poucos centímetros da minha perna, e no atrás do volante, uma cara de uma pessoa muito furiosa e assustada ao mesmo tempo com uma mão apertando a buzina. Seria o funeral do garoto branco?

Chego ao ponto e encontro um ex-colega de curso, que entrou na faculdade junto comigo no meu primeiro curso em 2006, e ele me fala que estava para se formar no fim do ano. Acorrentado nos meus sonhos, eu percebi que o tempo passou e ainda sou o mesmo. Um simples estudante que está num ponto de ônibus por não ter outro transporte, ao contrário do ex-colega que está lá por ter deixado o seu carro na revisão. Ele embarca num ônibus com direção ao Iguatemi...
Após o ônibus sair, o Sol, que tinha sido tampado pelo mesmo, ofusca meus olhos, e lentamente ele ia se pondo atrás dos prédios da Garibaldi, e ouço "O sol se põe e sem saber o que fazer, dá um passo à frente e consegue perceber que as nuvens são apenas nuvens". Ao ouvir isso, me lembro de um ditado marroquino que diz "Atrás de pesadas nuvens negras, sempre há um céu azul".
 

Daqui a um mês estarei de volta às aulas, e um semestre novo começará. Tá na hora de lutar por meus ideais, e mostrar que tudo o que eu consegui nesse tempo todo não foram esculturas feitas de pó, muito menos frágeis grãos de pólen que se perdem no tempo.
 

Cheque Mate.

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